É bom olhar pela janela, avistar toda
aquela chuva imensa que escorre pelos vidros e que em seguida embacias com a
tua forte respiração. Sorris aliviado, mas um pouco entediante. É por ali que
ficas, contudo, deveras pensativo. Há alturas da vida que estás coberto de nós
a que não consegues soltar-te por mais que te esforces, e tu sabes o quão é
difícil manter-se vivo, manter-se forte, porque um ser humano embora tenha a
capacidade de proteger a mágoa que sente para dentro de si, um dia chega ao
limite e desprende-se enraivecido. As fases da vida são enervantes, tal como o
nosso estado de espirito, num dia coberto de armaduras, noutro completamente
desprotegido. Nós somos deste jeito, pessoas complexas e agressivas. A vida
acaba constantemente por nos desafiar em grande, e nem sempre conseguimos estar
á altura dela, não temos sequer coragem de sair de casa e enfrentar qualquer
caminho por mais curto que seja. Que ignorância da nossa parte, que
complexidão! Há dias que tudo nos apoquenta, ou porque o café da manhã está
quente, ou porque faz frio, ou por tudo ou por simplesmente nada. Às vezes sentimo-nos
múltiplos, emaranhados, presos numa estrondosa tempestade de sentimentos
vazios, perdidos como ninguém, como se passássemos pelo desconhecido. Mas isto
são fases que existem em nós, porque em seguida é como se uma parte da nossa memória
tivesse sido levada pelo vento para o outro lado do mistério, e nós voltaríamos
a onde pertencemos. A vida é fugaz, veloz, sem medos para nos prender onde quer
que seja.

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